Ter acesso ao mercado estadual e nacional não é tarefa fácil para agricultores que vivem longe dos grandes centros e trabalham de sol a sol para produzir alimentos para a população. É por isso que o trabalho desenvolvido pela Epagri para trazer estes produtores para uma das maiores vitrines de negócios de Santa Catarina é tão importante. Na Exposuper, realizada entre os dias 16 e 18 de junho, em Balneário Camboriú, 39 produtores e cooperativas mostraram para empresários do ramo de atacados, distribuidoras e supermercados o que a agricultura familiar de Santa Catarina produz de melhor. E os resultados não demoraram a aparecer.

“Para nós, que trabalhamos no campo, é muito difícil atingir um grande público. Nós participamos da Exposuper em Joinville, e só no primeiro dia do evento deste ano, alcançamos um público maior do que em 2018”, comemora Edgard Heil Woicekowski, 44 anos, presidente da cooperativa de produtores de banana de Corupá, Cooper Rio Novo. Eles trouxeram para a feira lançamentos na linha de petiscos de banana caturra desidratada, produzida com a banana que conquistou o IG (indicação geográfica) em 2018, e bolachas artesanais nos sabores coco, nata, amendoim e araruta.
“A nossa banana é a mais doce do Brasil, por isso o pessoal se surpreende quando prova o petisco, achando que acrescentamos açúcar ou que foi caramelizado, na verdade é banana pura mesmo”, destacou. A cooperativa, fundada em 2006, reúne 24 famílias da localidade de Rio Novo.
Para diversificar a atividade, os produtores também lançaram uma linha de bolachas, cujas receitas também têm o dedo da Epagri, pois foram ensinadas pelas extensionistas sociais do Centro de Treinamento de Joinville (Cetreville). “A linha de bolacha pretende atingir um público mais amplo e já está nos planos produzir biscoitos integrais para o nicho da alimentação saudável”, adianta Edgard.
Mas o produto que mais se destaca na cooperativa é a biomassa concentrada de banana verde, que agrega valor ao produto e enriquece a alimentação de centenas de crianças de Corupá, já que, por ser um alimento super nutritivo, foi incluído na merenda escolar através do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae). “E tudo começou quando o Andrei Dias fez o curso de Jovens Rurais da Epagri e seu plano de negócio para o beneficiamento da banana verde foi contemplado com recursos do Banco Mundial, na época, através do programa SC Rural”, revela.
O próximo passo será investir em um equipamento para pasteurizar a polpa de biomassa, de forma que não precise de refrigeração e possa ser comercializado em grandes mercados. “Hoje, o produto deve ser mantido a 23⁰C e não podemos garantir a qualidade se tiver variações de temperatura no transporte. Nossa expectativa para 2027 é fazer um novo projeto junto à Epagri para darmos mais este passo na cooperativa, que já registra um crescimento de 10% a 15% anual, tanto na produção quanto em faturamento “, comemora.
Coomapeixe foi pioneira em fornecer tilápia para a merenda escolar

Nos anos 1990, o gerente de vendas Mário Krambeck, de Timbó, teve a ideia de abrir um pesque e pague e criar um centro de lazer, com direito a um restaurante onde o peixe fresquinho era preparado pelas talentosas mãos de sua esposa, uma inovação que anos depois seria batizada de turismo rural. Mas, com o passar dos anos, produzir tilápia para fornecer à população se tornou mais viável economicamente, especialmente depois das criação de leis estadual e federal que garantem até 45% dos recursos públicos destinados à compra de insumos de produtores locais para o Pnae.
“Antes era muito difícil para o pequeno produtor competir com as grandes indústrias. A nossa cooperativa se tornou uma das primeiras da região a fornecer filé de tilápia para as escolas, há cerca de 20 anos, por isso nos tornamos referência no Estado”, declarou o presidente da Coomapeixe, Roger Krambeck, que assumiu o negócio do pai, falecido no ano passado. A cooperativa, que beneficia 60 toneladas de peixe por mês, é formada por 35 famílias produtoras de 12 municípios do Alto Vale do Itajaí, que se uniram para enfrentar desafios comuns e ter mais segurança para escoar a produção.
Para a Exposuper, a Coomapeixe trouxe seu carro-chefe: um filé de tilápia macio e marinado no shoyo, que encantou os visitantes. Também foi servido um caldo de tilápia, receita do antigo pesque e pague, que é comercializado congelado, assim como o filé. “Foi uma forma de aproveitar as aparas do peixe e agregar valor ao produto”, explica Roger, que é engenheiro civil. Para ampliar o mercado, a intenção é investir em equipamentos para lançar uma linha de petiscos e empanados. O Projeto se tornará possível graças às políticas públicas viabilizadas pela Epagri através do trabalho da extensão.
Cooperativa de Jaraguá do Sul inova ao garantir igualdade de gênero

A produtora Ivanete Souza, 54, passou oito dos 17 anos que está na Cooperativa de Produção Agropecuária de Jaraguá do Sul (Copaja) como presidente da entidade, período em que foi introduzida uma regra tão clara quanto simples: mulheres e homens têm participação equânime. “Quem não sabe que mulher é boa de gestão? Eles não são bobos”, se diverte Ivanete, que hoje é secretária executiva da instituição.
A Copaja é formada por 85 produtores de seis municípios do Litoral Norte do Estado e tem uma ampla gama de produtos em seu portfólio: geleias artesanais, sucos de uva e maçã, mel, banana-passa e hortaliças, que começaram a ser fornecida para as escolas municipais da região através do Pnae em 2009, cinco anos após a fundação. Para 2027, a cooperativa pretende adquirir uma desidratadora para reduzir as perdas na agricultura.
“Uma vez chegou um produtor de figo perguntando como vender o excedente de figos, e vender in natura era impossível, não havia tanta demanda no mercado. Isso me deu um estalo e comecei a reunir receitas do workshop que fiz no Nordeste, onde preparam as geleias de um jeito diferente, para criar novos produtos e agregar valor”, revela.
Ivanete conta que também já fez inúmeros cursos nos centros de treinamento da Epagri, de receitas à cooperativismo, inclusive para ampliar as possibilidades de negócio através de feiras como a Exposuper. “Já tínhamos ido na Exposuper em Joinville, mas aqui em Balneário Camboriú está sendo revolucionário. Quando que um pequeno produtor teria a chance de alugar um estande num evento desse tamanho?”.
Queijaria Fazenda Liberdade conquista ouro em concurso internacional

Quando Jeferson de Quadros, 40, comprou uma vaquinha para fornecer leite para seu restaurante, em Blumenau, não imaginava que poucos anos depois mudaria radicalmente de atividade. Ele tinha adquirido 12 cabeças de gado de corte em sua propriedade em Benedito Novo, mas como não fez uma pesquisa de mercado, não percebeu que não teria demanda. Mas, quando serviu o queijo colonial (receita de sua mãe Elvaci) para parentes e amigos, eles profetizaram: você tem que produzir queijo!
Resultado: os queijos Mika (com leite cru) e Colonial ganharam medalha de ouro no Prêmio Queijo Brasil, em Blumenau, no ano passado, e no 4º Mundial de Queijo 2026, realizado no mês de abril, em São Paulo. Hoje, a propriedade conta com 12 vacas leiteiras e produz 1,7 mil litros de leite por mês e 450kg de queijo. “Eu nunca pensei em virar queijeiro, mas a aceitação do produto foi tão boa que espero, em breve, passar o ponto do restaurante e me dedicar totalmente aos queijos autorais”, afirmou.
São seis tipos de queijos, de diferentes texturas. Desde o macio minas frescal, que tem um tempo de maturação de apenas 24h até queijos mais encorpados, como o novo lançamento maturado por seis meses e semelhante ao parmesão. Além dos queijos, a agroindústria também produz iogurte, manteiga e doce de leite, que são comercializados na região do Alto Vale e através da loja virtual para qualquer lugar do Brasil graças ao Selo Arte, conquistado no ano passado, com o apoio da Epagri.
“Desde o momento em que decidi abrir a queijaria sempre teve um extensionista ou técnico nos dando suporte, fazendo os projetos de financiamento para comprar as matrizes leiteiras e equipar a unidade de beneficiamento de acordo com a legislação sanitária”, afirmou. Uma vez por mês, Jeferson abre a propriedade para receber visitantes que podem conhecer de perto a produção de laticínios, com direito à um café com produtos da roça e degustação de queijos. Contatos através do perfil no Instagram @liberdadefazenda.
Dirceu apostou em tecnologia para produzir cachaças e licores

A experiência como engenheiro mecânico, fabricando peças de metalurgia para várias indústrias do Estado, proporcionou a Dirceu Schmitt, 46, um vasto conhecimento para empreender utilizando o que há de mais moderno para produzir bebidas especiais com qualidade, eficiência e sem depender de mão de obra. Para isso, ele não teve pressa. A Destilaria e Alambique Sandirelo, em Benedito Novo, tem mil metros quadrados e demorou cinco anos para ser construída de forma totalmente automatizada.
O prédio foi equipado, em grande parte, com peças que ele mesmo projetou e tem capacidade para produzir 30 mil litros de bebidas por mês. Dirceu também pensou na questão ambiental quando escolheu o combustível das caldeiras. Em vez de lenha, ele optou por pellet de pinus, um biocombustível feito a partir de resíduos de madeira, que além de gerar menos gás carbônico, custa 50% menos em relação ao gás GLP.
“Eu sempre tive paixão por bebidas e adoro mexer com agricultura. Como já cultivamos cana-de-açúcar, resolvi unir as duas coisas, pesquisando muito e projetando cada detalhe para que apenas eu e a esposa pudéssemos tocar a empresa”, explica. O relacionamento com a Epagri vem de longa data, desde a assistência técnica para fazer a adubação e correção de solo, até a parceria em participação em feiras para ampliar o mercado.
Dirceu ainda trabalha como engenheiro mecânico, mas acredita que em breve vai se dedicar apenas à destilaria, que fabrica 16 tipos de licores e nove cachaças, com destaque para um bitter composto por 44 ervas que equilibra amargor com doçura e agrada paladares sofisticados. “Só ontem já fechei um negócio com uma distribuidora de bebidas para fornecer 600 garrafas de licor de nêspera. Também estive mês passado na feira BNT Mercosul e as bebidas venderam super bem. Creio que em dois anos já terei 100% de retorno do investimento que fiz na fábrica, daí em diante, é só alegria”, comemora.
Além da participação nas feiras, Dirceu e Sandra também abrem a destilaria para o público de sexta à domingo para mostrar as inovações tecnológicas e apresentar a grande gama de sabores de bebidas, como figo, framboesa, café, tangerina, butiá, gengibre e jabuticaba, além das cachaças artesanais e premium (envelhecidas). Quem deseja conhecer o empreendimento em Benedito Novo, pode acessar o perfil no Instagram @sandirelo.
Por Renata Rosa, jornalista bolsista da Epagri/Fapesc
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