Capacitar jovens para garantir a sucessão familiar no campo é um dos compromissos da Epagri para que a produção de alimentos ganhe fôlego nas próximas gerações. Para isso, a empresa desenvolve um trabalho junto aos filhos e filhas de agricultores desde 2012, com resultados tão promissores que o método, baseado na pedagogia da alternância, foi ampliado para mulheres e jovens do mar, através do projeto Flor-E-Ser. Em Itajaí, 22 jovens agricultores deram início à esta jornada de aprendizado no dia 23 de junho.

Na primeira etapa do curso, que vai até novembro, os jovens conheceram o trabalho desenvolvido pela Epagri através das palavras experientes da antropóloga e extensionista social, Rose Mary Gerber, que por muitos anos foi coordenadora do projeto em Florianópolis. Para deixar a turma à vontade, ela disse que, no início, também era tímida e, com o tempo, conseguiu ser mais autoconfiante e atuar junto aos jovens para que possam, também, ganhar voz.
“No decorrer do curso eles se transformam porque chegam tímidos, calados, e por meio de técnicas, eles vão se soltando, trabalhando a oratória, elaborando projetos, aprendem a dialogar melhor com os pais, e no final do curso, a gente vê o resultado, inclusive alguns se tornam liderança em seus municípios, nos sindicatos e nas colônias de pesca”, revela.
Rose também conversou com os jovens sobre a importância do trabalho rural para o futuro da agricultura familiar e os desafios que precisam ser enfrentados para que eles alcancem os resultados desejados. “Primeiro, porque a população está envelhecendo, segundo, porque os próprios pais incentivam os filhos a saírem. Eles têm na memória que é um trabalho árduo, manual, sem folga nem acesso à saúde ou à educação. Mas, para esta geração, que já nasceu com o celular na mão, é preciso pensar diferente. É preciso fazer uma atualização técnica para que se sintam atraídos pela atividade”, recomenda.
Segundo Rose – que vai se aposentar este ano, após 40 anos de Epagri – quando os jovens conseguem dialogar com os pais e decidem ficar no campo, eles assumem o papel de protagonista do processo de mudança e modernização da atividade. “Outro aspecto interessante é que tratamos o jovem como adulto. Mesmo com 18 anos, ele trabalha com agricultura há alguns anos, então, já é um profissional”, afirma.
Ela acrescenta que o período de alternância serve para levar os conhecimentos para a propriedade, colocar em prática tarefas com o apoio dos pais e voltar para mais atividades teóricas e práticas, como visitas à outras propriedades, de diferentes culturas, para conhecerem outras realidades. “É um curso de longa duração, de 220 horas/aula, onde eles conhecem as cadeias produtivas na região que vivem a fim de entender todas as possibilidades de trabalho naquela área. Por isso é essencial que este projeto se torne uma política política de Estado para garantir os recursos e qualificar os profissionais”, reforça.
Alexandre decidiu voltar para o campo depois de trabalhar na indústria

Não era do gosto de seu pai, muito pelo contrário, mas Alexandre Hausmann, 29 anos, decidiu voltar às origens da família, que remonta ao tempo de seus tataravós, em Gaspar, após trabalhar na indústria e em empresas de tecnologia. Ele conta que, após servir o exército, foi trabalhar na indústria têxtil para realizar o sonho do pai, onde sofreu um acidente e teve um dedo amputado. Depois, ele realizou o sonho da mãe, que era entrar na faculdade. Quando estava quase finalizando Administração, ele migrou para Ciências Contábeis e, depois, para Gestão de Sistemas. Agora, Alexandre quer empreender em uma criação de codornas para postura de ovos e, para isso, começou com 200 aves.
“Eu não aguentava mais realizar o sonho dos outros. Antes, eu trabalhava no ar-condicionado e ficava sentado o dia todo. Hoje, trabalho de domingo a domingo, e muitas vezes, debaixo de sol. Sim, é mais cansativo, porém, amo trabalhar no campo. Plantar, cultivar, ver o negócio crescer e dar certo. Como todo trabalho, tem desafios, momentos bons e ruins, mas a satisfação não tem preço”, acredita.
Sua ideia para o plano de negócio ao final do curso é ampliar a criação para 3 mil aves, a princípio, para não depender de mão de obra. E para não faltar às aulas no Centro de Treinamento de Itajaí (Cetrei), onde deseja aprender mais sobre gestão, ele conta com a ajuda da mãe para alimentar as aves. Sem falar no apoio da namorada. “Ela é arquiteta e apoia 200% minha decisão de voltar para o campo. Na verdade, até brigou comigo por ainda não ter dado início à granja”, revela.
Kauã quer aumentar a renda para dar mais qualidade de vida aos pais

O estudante Kauã Pinto, de Indaial, teve uma grata surpresa quando a coordenadora do projeto Flor-E-Ser, Adriane Nascimento Mendonça, trouxe um bolo enorme na noite do dia 24 para comemorar seu aniversário de 18 anos. “O instrutor Anschau e a instrutora Adriane são muito atenciosos! Fiquei muito feliz em poder compartilhar este dia com meus colegas. Nosso grupo tem uma parceria enorme! Nós nos divertimos, descansamos, assistimos ao jogo da Copa, foi maravilhoso!”, comemora.
O jovem conta que a agricultura faz parte da história da família, que se mudou para Indaial quando os avós maternos vieram iniciar um negócio próprio e sua mãe cursou Pedagogia. Seu pai também veio trabalhar na cidade, mas, cansado da vida de empregado, comprou terras em Apiúna, onde implementou um projeto de reflorestamento. Mais tarde, ele comprou uma propriedade na divisa de Timbó e Indaial, onde a família começou a trabalhar na agricultura, que é bem diversificada, com criação de vacas, porcos e galinhas, cultivo de hortaliças e pomar de uvas, laranjas, pêssego, mamão, limão, banana e maracujá.
Kauã afirma que entrou para o curso Jovens Rurais para aumentar a renda de seus pais a fim de que possam ter mais qualidade de vida quando forem idosos. A ideia é construir uma granja de galinhas, mas mantém a mente aberta para outras possibilidades que podem surgir ao longo do curso. Quanto à vida no campo, não há dúvidas. “Gosto muito da qualidade de vida do sítio, além disso, o acesso à cidade é fácil, então posso ter contato com a população da cidade e ainda manter nossa ancestralidade rural”, garante.
Irmãos produtores de bananas pretendem reformar galpão

Michele Habitzreiter, 22, está fazendo o curso Jovens Rurais com o irmão Luiz Felipe, 18. Eles trabalham na propriedade dos pais, que produzem banana em Balneário Piçarras, e pretendem fazer um plano de negócio em conjunto para reformar o galpão onde os cachos são ‘despencados’, ou seja, as pencas são cortadas e higienizadas para seguir para as caixas de transporte. Ao contrário de muitas garotas que preferem se mudar para a cidade, Michele tem certeza que seu lugar é no campo.
“Muitas acham que a vida na cidade é mais fácil para as mulheres, mas acho que depende de cada uma. Eu, por exemplo, sou uma pessoa que não gosto muito de lidar com o público; já tive a experiência de trabalhar no comércio e em uma clínica e não me adaptei. Realmente, trabalhar na agricultura é um serviço difícil, principalmente no nosso caso, que exige muito esforço físico e precisa ser trabalhado debaixo de sol e chuva. Mas, aqui eu trabalho no que gosto”, afirma.
Henrique fez estágio na Epagri e quer investir em agroecologia

As instalações da Epagri em Itajaí não são novidade para Henrique Eriberto Nunes, 19, também de Balneário Piçarras. Ele cursou o ensino médio com foco em agroecologia no Instituto Federal Catarinense (IFC), em Rio do Sul. O engenheiro-agrônomo e pesquisador de fruticultura da Estação Experimental de Itajaí (EEI), Ricardo Negreiros, foi seu supervisor de estágio, e durante uma conversa sobre o que ele iria fazer depois de terminar o ensino médio, ele o aconselhou a fazer o curso Jovens Rurais.
Henrique conta que trabalha na propriedade dos pais, onde tudo que produzem é para consumo próprio. Eles têm um pomar com várias árvores frutíferas, plantam legumes e hortaliças, criam vacas, galinhas, patos, porcos e cabras. Com o curso, ele espera começar a comercializar o fruto desse trabalho.
“Em relação ao plano de negócio, quero investir em um sistema agroflorestal, onde é a nossa pastagem atualmente. A bananicultura e o açaí juçara são opções interessantes, mas também é possível cultivar pitangas para extrair óleo essencial. São várias possibilidades e durante o curso espero descobrir o que é mais valorizado pelo mercado”, explica.
Entre os conhecimentos adquiridos na primeira etapa do curso, Henrique destaca a importância da regularização da terra para investir na propriedade e, na parte histórica, descobriu como era a realidade dos imigrantes europeus quando chegaram ao Brasil e tiveram que se adaptar às condições locais de solo e clima.
Por Renata Rosa, jornalista bolsista da Epagri/Fapesc
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