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BLOG-Epagri

BNDES premia processo de certificação participativa em Biguaçu

Espécies arbóreas se regeneram entre as culturas de ciclo anual (Foto: Fernando de Luca)

O processo de certificação participativa para uso e conservação da floresta no sistema itinerante, desenvolvido pela Associação Valor da Roça, de Biguaçu, na Grande Florianópolis, é um dos vencedores do Prêmio BNDES de Boas Práticas para Sistemas Agrícolas Tradicionais. A Epagri, a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e o Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA) são os principais apoiadores do projeto. Das 63 práticas submetidas à avaliação da comissão julgadora, a iniciativa de Biguaçu obteve o sétimo lugar. Como prêmio, a Associação Valor da Roça recebeu R$ 50 mil.

A comunidade rural de Biguaçu desenvolve há gerações um sistema de cultivo caracterizado por períodos de alternância entre lavouras anuais e a floresta nativa, sem revolvimento do solo e com um manejo especial. Nesse sistema, eles plantam principalmente mandioca, banana, feijão e milho, sem uso de agroquímicos. A prática tem permitido a manutenção da floresta, da paisagem e a conservação da biodiversidade, evitando a conversão definitiva da terra para uso diverso, como por exemplo, formação de pastagem ou plantio de florestas exóticas.

Sustentabilidade e tradição

O sistema de uso da terra tradicionalmente praticado pelos agricultores de Biguaçu caracteriza-se pela supressão de pequena gleba de vegetação para o cultivo de lavouras anuais por curto período de tempo. A lenha retirada é usada na produção de carvão vegetal. Após a colheita da lavoura, a floresta volta a se regenerar. “Outra importante característica é o fato de que já entre as plantas de ciclo anual é realizada a condução da regeneração natural. Ou seja, ao mesmo tempo em que cultivam, os agricultores manejam espécies arbóreas regenerantes, o que caracteriza um tipo peculiar de sistema agroflorestal”, explica Reney Dorow, Gerente do Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola da Epagri (Epagri/Cepa).

Esse manejo permite a rápida regeneração do fragmento florestal após a colheita da lavoura anual. Outro aspecto fundamental dessa prática é o caráter social. Ao respeitar o conhecimento empírico dos agricultores locais, a instituições governamentais preservam um saber-fazer histórico. Diversos estudos nacionais e internacionais têm apontado os benefícios socioecológicos desse sistema e registram importantes prejuízos nas regiões onde ele tem sido abandonado, sobretudo a perda da biodiversidade.

Desde 2009, a Epagri e as instituições parceiras desenvolvem projetos com esses agricultores, que formaram, em 2013, a Associação Valor da Roça. A entidade possui um Caderno de Normas que é seguido rigidamente pelos associados. Uma das principais regras é que a vegetação suprimida para a roça volte a se regenerar após o cultivo. Para garantir que as regras sejam cumpridas, uma comissão de associados faz vistorias nas áreas em regeneração e, assim, certifica de forma participativa o cumprimento do compromisso assumido.

Sobre o prêmio

O Prêmio BNDES de Boas Práticas para Sistemas Agrícolas Tradicionais é uma iniciativa do BNDES em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa/MAPA), o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan/MinC) e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO/ONU). O objetivo é reconhecer boas práticas ligadas à salvaguarda e conservação dinâmica de bens culturais e imateriais associados à agrobiodiversidade e à sociobiodiversidade presentes nos Sistemas Agrícolas Tradicionais no Brasil.

(Publicado em Vol. 31, nº3, set./dez. 2018)

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