É de comer, sim! Conheça as plantas alimentícias não convencionais

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Cristina e Pedro defendem o uso das PANCS para a diversificar a alimentação (Foto: Aires Mariga/Epagri)

Você já parou para contar a variedade de vegetais que compõe a alimentação de sua família? Segundo o botânico brasileiro Valdelly Kinupp, até 2006 o Brasil registrou cerca de 2 mil espécies alimentícias, enquanto a alimentação da maioria dos brasileiros se restringe a 20. Mas nem sempre foi assim. Se você conversar com as gerações mais antigas, com certeza elas vão se lembrar de muitas plantas que desapareceram das refeições.

A nutricionista Cristina Ramos Callegari, extensionista da Epagri de Florianópolis, explica que a redução de plantas empregadas na alimentação humana vem ocorrendo há décadas, seja pela redução da biodiversidade, seja pela praticidade dos alimentos industrializados. “Isso também acarreta a perda da diversidade cultural, pois se abandonam saberes tradicionais associados ao consumo de espécies de ocorrência local ou regional”, diz ela.

Infelizmente a realidade da área rural não é muito diferente. Mas se depender da Epagri, isso vai mudar. Diversas têm sido as iniciativas para levar ao conhecimento dos agricultores as potencialidades das Plantas Alimentícias Não Convencionais, as PANCs. Segundo Kinupp e Harri Lorenzi, que publicaram um livro sobre as PANCs no Brasil, essas plantas são aquelas que a maioria das pessoas nem se dá conta que são alimentos. Muitas, inclusive, são consideradas mato ou erva-daninha, pois crescem espontaneamente em quintais, campos e beiras de estrada. Também são consideradas PANCs partes de plantas convencionais, como por exemplo folhas da batata-doce ou o mangará (coração) da bananeira.

PANCS colhidas na propriedade de Pedro: agriãozinho, azedinha, bela Emília, bertalha, capuchinha, espinafre silvestre, picão- brando, ruculazinha e serralha (Foto: Aires Mariga/Epagri)

“Essas plantas podem ser comercializadas in natura, como também processadas em forma de geleias, pães, farinha, entre outros, e incrementar o turismo rural e gastronômico”, diz a extensionista. Ela esclarece que as PANCs são tão ou mais nutritivas que as convencionais. “A folha da batata-doce, por exemplo, tem valor nutricional semelhante ao espinafre.”

Baseada em projetos da Embrapa, Cristina coordena um projeto na Grande Florianópolis para levar essas informações aos agricultores familiares. Para isso, ela foi à busca de mudas para compor a Unidade de Referência Técnica (URT) que está sendo desenvolvida em 3 mil metros quadrados do Centro de Treinamento de Florianópolis pelos engenheiros-agrônomos Altamiro Morais Matos Filho e Philipe Medeiros da Costa. Altamiro chama a atenção para a rusticidade das PANCs: elas são adaptadas ao clima, têm elevada eficiência na absorção de nutrientes, baixa necessidade hídrica e baixa exigência de solo.

A ideia é que as mudas sejam reproduzidas e a URT sirva para ampliar o conhecimento dos agricultores sobre as PANCs. A maior parte delas foi trazida da Estação Experimental de Itajaí (Epagri/EEI), que é referência em pesquisa com plantas bioativas e nutracêuticas, ou seja, aquelas que têm propriedades terapêuticas. Cristina ressalta que os pesquisadores da Epagri/EEI são grandes apoiadores da iniciativa em Florianópolis, assim como o pioneiro desse trabalho em Itajaí, Antônio Amaury Silva Junior, já aposentado.

Algumas PANCs presentes na URT da Epagri em Florianópolis

Plantas Nome científico Propagação Propriedades nutricionais Usos culinários
Bertalha Basella alba Sementes e estacas Rica em cálcio, ferro e vitaminas A e C. As folhas suculentas podem ser consumidas em saladas cruas, salteadas, ensopadas ou para fazer pães, bolinhos, suflês e caldos verdes. Os botões das flores podem ser cozidos com arroz, sopas e omeletes. A parte carnosa dos frutos é um corante (betalaína) que pode ser usado para colorir gelatinas, massas e doces.
Chaya Cnidoscolus aconitifolius

 

Estacas Boa fonte de proteína, ferro, cálcio, e vitaminas A e C. Pode ser consumida da mesma forma que o espinafre ou como a couve. As folhas jovens, retirando os longos pecíolos, podem ser refogadas ou salteadas. Essa planta deve ser cozida ou aferventada antes do preparo para alimentação, a fim de eliminar o ácido hidrocianídrico que contém.
Capuchinha Tropaeolum majus Sementes e estacas Rica em vitamina C, antocianinas, carotenoides e flavonoides. As flores são ótima decoração comestível e, assim como as folhas, podem ser usadas cruas em saladas, ou salteadas e usadas em massas e patês.
Caruru Amaranthus deflexus Sementes As folhas são fonte de cálcio, potássio, magnésio, ferro, zinco e vitaminas A, B1, B2 e C. As sementes são ricas em proteínas. As folhas podem ser usadas como o espinafre e devem ser cozidas ou aferventadas para alimentação. As sementes podem ser consumidas torradas, em pães e outras receitas.
Ora-pro-nóbis Peireskia aculeata Sementes e estacas Rica em proteína vegetal com aminoácidos essenciais (semelhante à proteína animal). Os frutos são ricos em carotenoides e, quando imaturos, são fonte de vitamina C. Os frutos podem ser usados para suco, geleia, mousse e licor. As folhas e flores podem ser usadas em saladas cruas, salteadas, omelete, farinha, pães e massas.

Respeito à biodiversidade e ao consumidor

Em Santa Catarina já existem agricultores que cultivam as PANCs ao lado das plantas convencionais. É o caso do Pedro Faria Gonçalves, de Florianópolis. Há 15 anos ele produz no sistema agroecológico e hoje alimenta 50 famílias semanalmente com sua produção em meio hectare. Ele estima ter em seu sítio mais de 100 espécies, entre as comestíveis e as usadas na adubação verde.

“Há um círculo vicioso entre produção e consumo. A população come o que é cultivado. Hoje temos uma agricultura pobre e pessoas com deficiência nutricional”, afirma o agricultor. Ele acredita que, ao se ofertar mais variedade, a população vai passar a consumir novos alimentos. “É preciso valorizar a conservação da biodiversidade e respeitar as necessidades nutricionais do consumidor final”, diz ele. Além de pôr isso em prática na propriedade, o agricultor compartilha o conhecimento com os clientes para que eles também cultivem ou coletem as PANCs nos quintais de suas casas.

Altamiro e Cristina salientam que essas hortaliças ainda não receberam a devida atenção por parte da comunidade técnico-científica nem da sociedade, têm distribuição limitada e não possuem cadeia produtiva estabelecida. Por isso, eles e diversos outros profissionais da Epagri estão trabalhando para que Santa Catarina tenha mais agricultores como Pedro. Cursos têm sido ministrados em diferentes municípios para capacitar as famílias a identificar essas plantas e como prepará-las. No Oeste Catarinense há, inclusive, um forte trabalho com indígenas para o resgate e a trocas de sementes entre as comunidades.

PÃO COM ORA-PRO-NÓBIS

Foto: Epagri/Cetrei

Ingredientes:

1kg de farinha de trigo branca

300ml de leite morno

150ml de água de morna

100g de folhas verdes de ora-pro-nóbis

3 gemas (fora da geladeira)

5 colheres (sopa) de manteiga

1 e ½ colher (sopa) de fermento biológico seco

6 colheres (sopa) de açúcar

½ colher (sopa) de sal

Modo de preparo:

Misturar os ingredientes secos (farinhas, fermento, açúcar e sal) em uma bacia. Triturar as folhas de ora-pro-nóbis com os 100ml de água morna, acrescentando o leite morno, a manteiga e as gemas. Juntar aos ingredientes secos e amassar bem até formar uma massa homogênea. Abrir a massa com rolo, rechear a seu gosto, dividir em cinco porções iguais e colocar em forma redonda com furo. Deixar  crescer. Pincelar com ovo batido e óleo e levar ao forno para assar. Ao retirar do forno, pincelar a superfície do pão com água doce, para evitar o ressecamento da casca.

– Receita desenvolvida pela equipe de instrutores do curso de panificação nutracêutica do Centro de Treinamento de Itajaí (Epagri/Cetrei.

(Publicado em Vol. 29, nº3, set./dez. 2016)