Santa Catarina reproduz tainhas em cativeiro

Objetivo da pesquisa é viabilizar o cultivo da espécie em viveiros (Foto: Lapmar/UFSC)

Em um projeto inovador no Brasil, a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e a Epagri obtiveram sucesso na produção de alevinos de Mugil liza em cativeiro. Esse é o primeiro resultado do projeto Tecnologia para a produção comercial da tainha no Estado de Santa Catarina, criado com o objetivo de viabilizar o cultivo da espécie em viveiros. “A proposta é desenvolver e aprimorar técnicas de maturação, reprodução, larvicultura e cultivo da espécie em cativeiro no Estado”, explica Sérgio Winckler da Costa, oceanógrafo da Epagri e coordenador do projeto.

O trabalho é dividido em duas etapas. A primeira, que previa a investigação do processo de produção de juvenis de tainha, teve os resultados apresentados em abril, quando um lago em Jaguaruna foi povoado com 100 exemplares com peso médio de 150g. A segunda etapa é a avaliação de sistemas de recria e engorda.

O objetivo da pesquisa é fazer da tainha uma alternativa de cultivo para os viveiros de camarão do Estado, que foram desativados depois da infestação com o vírus da mancha-branca, a partir de 2005. “Na época eram 115 fazendas com área de 1.500ha. Parte delas acabou sendo convertida para outras atividades, restando cerca de 1.000ha com possibilidade de uso para cultivo de outras espécies, incluindo a tainha”, comenta Winckler.

O cultivo da tainha em viveiros já é realizado em países como Taiwan, Egito e Itália, porém, com outra espécie, a Mugil platanus. No Brasil, o cultivo ainda não existe pela indisponibilidade de alevinos. “Esse trabalho vai gerar um conjunto de informações sobre captura, transporte, indução a desova, larvicultura e berçário da tainha Mugil liza em Santa Catarina. A tecnologia será transferida para empresas do Estado, que poderão utilizá-la abrindo portas para geração de emprego e renda”, destaca o pesquisador.

Nascidas em laboratório

Em 2014, a equipe fez 18 capturas de 68 tainhas nos municípios de Laguna, Jaguaruna e Penha. “Essa etapa foi importante para definir procedimentos de captura, manejo, anestesia e transporte para tentar minimizar ao máximo as injúrias à tainha”, conta Winckler. O pesquisador explica que, para obter sucesso na reprodução, as fêmeas têm que estar com as ovas prontas, o que só pode ser verificado em laboratório. Só então é possível realizar a indução da desova com hormônios.

A desova pode ocorrer naturalmente ou por extrusão (pressão na região ventral do peixe). No laboratório, foram realizadas dez induções, obtendo duas larviculturas, das quais apenas uma foi viável. O resultado desse esforço foi a produção de 1.440 juvenis.

Agora os pesquisadores vão trabalhar para produzir pelo menos 100 mil alevinos ainda em 2015. A etapa seguinte do projeto prevê a definição de um pacote tecnológico para recria e engorda com avaliação técnica e econômica do cultivo.

Também participam do projeto o Sindicato da Indústria da Pesca, dos Armadores e da Aquicultura da Grande Florianópolis e Sul Catarinense (Sinpesca Sul), a Atlântico Sul Maricultura, a Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc) e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

 

CAPTURAS EM BAIXA

A tainha é uma espécie marinha com grande importância econômica, social e cultural no Sul do Brasil. De acordo com o Ministério da Pesca e Aquicultura, ela está entre as 11 espécies mais capturadas no País. Nos últimos anos, porém, as capturas, que ocorrem de maio a julho, têm ficado abaixo das safras anteriores.

Isso ocorre porque, além da carne, as ovas da tainha são bastante apreciadas e têm alto valor de mercado. A captura de peixes com ovas, voltada especialmente para a exportação, prejudica a reprodução natural da tainha. De acordo com Sérgio Winckler, o cultivo comercial poderia reduzir o esforço da pesca e até permitir o repovoamento de ambientes naturais. A espécie também pode ser usada como isca viva para a pesca do atum.

(Publicado em Vol. 28, nº2, ago./dez. 2015)