Mudanças climáticas podem rebaixar VPA catarinense

O milho foi uma das culturas avaliadas pela pesquisa em Santa Catarina (Foto: Aires Mariga/Epagri)

Uma elevação de 1% nas temperaturas médias anuais provocaria uma queda de 0,67% no Valor da Produção Agrícola (VPA) catarinense. Por outro lado, uma elevação de 1% na precipitação causaria aumento de 0,03% no VPA do Estado. Essas são algumas das conclusões da pesquisa conduzida pela economista Nicole Rennó Castro para conclusão do mestrado em Economia Aplicada na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (USP/ESALQ).

O trabalho de dissertação apurou que os efeitos adversos produzidos por mudanças nas condições climáticas médias sobre o setor agrícola são divergentes entre os estados, sendo mais atrelados às variações de temperatura. Segundo o estudo, a agricultura praticada n Região Centro-Oeste tem sido a menos vulnerável em relação às variações de temperatura.

Nicole avaliou empiricamente e sob um enfoque econômico o impacto potencial das variáveis climáticas (em termos anuais) no VPA agregado dos principais estados produtores do País. A análise foi realizada a partir de um modelo de efeitos fixos aplicado a um painel de dados com dez estados (Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, São Paulo, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina) durante 23 anos (1990 a 2012).

Para cômputo do valor de produção real em cada estado a pesquisadora considerou uma cesta de produtos, escolhidos de acordo com a relevância nacional e a disponibilidade de informações. Em Santa Catarina foram avaliadas soja, cana, milho, arroz, mandioca, laranja, feijão, fumo, tomate, batata, trigo e cebola. Tais produtos respondem por 82% do VPA catarinense gerado entre 1990 e 2012.

A pesquisadora explica que Santa Catarina foi selecionada para a pesquisa por ser o sétimo estado com maior representatividade no Valor Bruto de Produção (VBP) agrícola nacional entre 1990 e 2012. O Estado catarinense respondeu por uma taxa média de 4% do VBP brasileiro no período, atrás de São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Mato Grosso e Bahia.

Para complementar o estudo, Nicole avaliou a evolução e a caracterização das principais variáveis agroeconômicas utilizadas no modelo para cada estado. Uma das medidas calculadas foi a de produtividade. Santa Catarina se destacou com um crescimento de 90% no período estudado. Para a média dos dez estados analisados, foi observado um crescimento de 60%.            Em 2012, especificamente, o Estado catarinense apresentou produtividade das lavouras 32% superior à média dos dez estados acompanhados. Foram 4,4 mil R$/ha para Santa Catarina contra 3,3 mil R$/ha para a média dos estados.

Em relação ao uso de fertilizantes, o estudo revelou uma expansão maior em Santa Catarina do que nos outros estados pesquisados. Enquanto no território catarinense o uso de fertilizantes cresceu 297% no período estudado, nos outros estados esse crescimento foi de 145% em média.

A dissertação também avaliou a evolução da mão de obra empregada nas lavouras, constatando redução de 51% no número de trabalhadores, caindo de 8,4 milhões de pessoas em 1990 para 4,12 milhões em 2012. Em Santa Catarina, a redução foi mais intensa, de 667 mil para 207 mil (redução de 69%). Em relação às horas trabalhadas semanalmente, foi verificada redução de 14% por pessoa na média dos estados e de 16,5% em Santa Catarina.

A escolaridade das pessoas ocupadas nas atividades agrícolas aumentou 85% para a média dos estados, entre 1992 e 2012. Em Santa Catarina o aumento da escolaridade foi menor, de 45%. “Entretanto, em 1992, Santa Catarina já apresentava uma média de escolaridade elevada em relação aos demais estados da amostra, com 3,8 anos, ficando atrás apenas do Rio Grande do Sul, com 4 anos”, avalia Nicole.

A pesquisadora ressalta que os resultados encontrados no estudo foram estimados com base em flutuações ano a ano das variáveis climáticas (curto prazo), de modo que os efeitos de longo prazo podem ser diferentes – maiores, ou menores. Ela lembra que ao longo do tempo os produtores podem se adaptar às mudanças no clima, atenuado os impactos. Em contrapartida, mudanças climáticas sistemáticas podem implicar efeitos adicionais de longo prazo, como efeitos na disponibilidade de água e na qualidade do solo, por exemplo, o que ocasionaria impactos mais expressivos no futuro.

(Publicado em Vol. 28, nº2, ago./dez. 2015)