Há 20 anos, Araquari era destaque na fruticultura de Santa Catarina pela produção de maracujá. A cultura agrícola estava tão ligada à identidade local que o município se tornou a Capital Catarinense do Maracujá, com direito à festa na semana de seu aniversário. Mas, por causa de uma doença que dizimou pomares inteiros, a atividade no Litoral Norte teve uma redução drástica entre 2008 e 2019, situação que está sendo revertida graças ao trabalho conjunto de pesquisadores e extensionistas da Epagri de Norte a Sul do Estado, em parceria com a prefeitura.

A principal estratégia para esta recuperação é o intercâmbio de informações em seminários e capacitação de agricultores com pesquisadores e extensionistas do Sul catarinense, onde se concentra atualmente 90% da produção de maracujá catarinense. O aparecimento da virose do endurecimento do fruto uniu os atores da cadeia produtiva e promoveu uma verdadeira revolução na forma de cultivar e produzir maracujá, com a adoção de novas técnicas de manejo, utilização de mudas sadias produzidas em abrigos telados, replantio anual e a instituição do vazio sanitário para renovar os pomares.
Após anos de pesquisa na Estação Experimental da Epagri em Urussanga (EEUR), a identificação do vírus aconteceu em 2016 e a primeira portaria estadual instituindo o vazio sanitário do maracujá-azedo veio em 2020, com recomendação de 30 dias. Na região de Araquari, o vazio começa em 1º de julho.
“O vazio sanitário é necessário para baixar a pressão do vírus sobre as plantas hospedeiras da área de produção. O vírus é transmitido por um pulgão que não gosta de se alimentar da seiva de maracujá, mas acaba provando o maracujazeiro, e é neste momento que ocorre a contaminação, geralmente em tecidos jovens das plantas. Por isso, outra recomendação é que a muda produzida em sistema protegido tenha altura de, pelo menos, 80cm para ser transplantada”, explica o engenheiro-agrônomo e pesquisador, Henrique Petry.

Número de produtores aumenta a cada ano
Em Araquari, onde os agricultores ainda não possuem cultivo protegido, as mudas são fornecidas pela prefeitura. Na safra 2023/24 foram entregues 23,5 mil mudas e, na safra seguinte, o número saltou para 43 mil. Este incentivo já mostrou resultados: em 2022, havia 19 produtores de maracujá no município; em 2023 subiu para 21; em 2024, para 26 e em 2025, 29. Este ano, 34 agricultores voltaram a apostar na produção de maracujá, segundo dados do escritório da Epagri do município.
“O que aprendemos durante os últimos 20 anos de trabalho sobre produção de maracujá no Estado é, principalmente, aprender a conviver com a doença, entender como e por que ela aparece. Não adianta apenas aplicar produtos, o segredo está no manejo”, afirma o técnico agrícola e gestor do Centro de Treinamento da Epagri em Araranguá (Cetrar), Sandoval Ferreira. Ele foi um dos palestrantes do seminário realizado em Araquari em abril, uma iniciativa da Epagri em parceria o Instituto Federal Catarinense (IFC), Cidasc e prefeitura, para revitalizar a atividade.
Sandoval apresentou em Araquari as estratégias de controle das principais doenças que acometem a cultura do maracujá. Além da virose, o maracujazeiro pode sofrer com doenças fúngicas como a verrugose, antracnose, bacteriose e a fusariose relacionada à umidade e temperatura. A verrugose ataca a planta na implantação do novo pomar (primavera) e durante a colheita, no início do outono. A antracnose acomete a planta em períodos de grande estresse climático, com amplitude térmica elevada, no início do verão e final do outono, as mesmas condições que favorecem a incidência da bacteriose. Também pode estar relacionada a problemas nutricionais e ferimentos causados por vento e granizo.
“A fusariose é uma doença do solo que ataca as raízes, por isso a importância de manter o solo protegido por plantas vivas o ano todo, elas mantêm a biota do solo equilibrada, sadia e ajudam a controlar as doenças. Antes só havia aveia no mercado, hoje tem mix de sementes de nabo, ervilhaca, centeio; no verão pode-se usar o milheto e a braquiária”, explica.
O extensionista rural Valdemar Sievert, que atua em Araquari há seis meses, disse que o evento marcou uma nova fase do trabalho da extensão rural junto aos agricultores para motivá-los a adotarem as técnicas de manejo que protegem os pomares e melhoram a rentabilidade. “Pretendo fazer visitas periódicas nas propriedades para tirar as dúvidas e ajudar a implementar as técnicas que eles não estão acostumados, como mostrar os benefícios de eliminar todos os pés de maracujá na época certa e apresentar políticas públicas para investir na produção e melhorar a produtividade”, afirma.
Visitas à propriedades do Sul do Estado fazem parte da estratégia

Além de eventos, cursos de capacitação e visitas técnicas, outra estratégia é levar os agricultores para conhecer propriedades do Sul que seguiram as recomendações de manejo e hoje são campeãs de produtividade, utilizando o sistema de produção “latada”. Neste método, as ramas são conduzidas sobre uma malha de arames aérea formando um teto verde, que facilita a colheita e a poda. “A produtividade média do maracujá saltou de 18 toneladas/hectare para 30 toneladas/hectare, mas tem propriedade que chega a produzir 77 toneladas, por isso compensa o investimento”, acredita Sandoval.
O pesquisador da EEUrR Henrique Petry, conta que a adoção do sistema latada no Sul do Estado tem origem cultural, já que é uma região produtora de vinho e as uvas são produzidas em parreiras. Para ele, a adoção de um método ou de outro depende da capacidade financeira do produtor, mas nada impede que pomares no esquema espaldeira tenham bons resultados, caso sejam seguidas as boas práticas de manejo e utilização de quebra-ventos, que formam uma barreira física contra as pragas.
“Ainda não temos um cultivar que seja resistente à virose, mas está previsto para o ano que vem testes com novos cultivares e sistema de condução com cobertura plástica das plantas. O projeto, que foi aprovado no SC Rural 2 e tem recursos do Banco Mundial, pode viabilizar a produção de maracujá mesmo em regiões mais frias do Estado, como em Videira, onde nosso pomar experimental resistiu até a chegada da primeira geada”, revela o pesquisador.
Julio apostou no sistema de latada para melhorar a produtividade

As visitas frequentes às propriedades rurais do Sul convenceram o produtor de maracujá de Araquari, Julio Fialkoski, 74 anos, a trocar o sistema de espaldeira pelo de latada para melhorar a produtividade do pomar. Ele planta a fruta há mais de 20 anos, quando se aposentou como engenheiro civil e começou a investir na produção agrícola. Na época, a produção de maracujá estava em alta e a festa anual, realizada em abril, atraia milhares de visitantes. “A festa era muito boa porque divulgava a produção, trazia gente de fora pra fazer palestras técnicas e ajudava a comercializar não só a fruta in natura, mas tudo que se faz com maracujá, como geleias, licores, cachaça”, relembra. A última festa foi realizada em 2019.
O produtor conta que começou a fazer a transição do sistema de produção no ano passado e logo na primeira safra percebeu um ganho de produtividade de 50%. “Eu consegui colher 15kg de fruta de cada planta da parreira, enquanto na espaldeira era no máximo 10 kg. Além do mais, na latada a planta se mantém mais saudável. Na espaldeira, o excesso de folhas deixa o ambiente fechado, dificulta até a polinização”, acredita. Hoje, Julio produz 60 toneladas de maracujá em três hectares e comercializa sua produção localmente, para uma indústria de polpas de Joinville e alguns mercados de Curitiba.
Além da adoção do novo sistema, o produtor investiu na melhoria do manejo, fazendo análise de solo e adubação constantes. “O solo não pode ficar exposto, as plantas de cobertura ajudam a manter o maracujazeiro sadio e em pé bem nutrido, as pragas e doenças não atacam tanto”, afirmou. Para impedir a entrada de insetos, ele também instalou quebra-ventos nas laterais do pomar e ficou atento à época do vazio sanitário. “Tem agricultor que não respeita, mas a gente sabe que é isso que mantém a virose controlada”, admite.
Por Renata Rosa, jornalista bolsista da Epagri/Fapesc
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