Uma análise da água na baía Sul da Ilha de Santa Catarina identificou um recorde de calor extremo no último verão em uma série de 2019 a 2026. O estudo feito pela Epagri mostra que a máxima absoluta passou de 29,83 °C em 2019 para 30,32 °C em 2026. No mesmo período, as horas equivalentes acima de 30°C passaram de 0 hora para 4,7 horas, ou seja, a água permaneceu mais quente por mais tempo.

Os dados são da estação do Centro de Informações de Recursos Ambientais e de Hidrometeorologia (Epagri/Ciram) “2951-Caieira I”, localizada no Sul da Ilha. O equipamento tem a série mais longa (8 anos), contínua e homogênea disponível na região. A análise foi feita pelos pesquisadores do Centro de Desenvolvimento em Aquicultura e Pesca (Epagri/Cedap) e confirma a percepção dos produtores de ostras, que enfrentam significativa mortalidade da espécie em função das altas temperaturas.
O pesquisador Luis Hamilton P. Garbossa, faz uma ressalva: “os números sugerem um possível aumento recente dos extremos, mas ainda não permitem afirmar, com segurança estatística, que o calor extremo no verão esteja aumentando de forma consolidada ao longo dos anos”. Segundo ele, o teste estatístico de Mann-Kendall, usado para verificar se existe uma tendência consistente ao longo do tempo, classificou todas as métricas como ‘sem tendência estatisticamente significativa’.
Garbossa explica que um dos aspectos que torna a análise inconclusiva é a forte variação de um verão para outro. O verão de 2022, por exemplo, se destacou como um dos mais quentes da série, influenciando a inclinação das retas de tendência nos gráficos, como pode ser visto na imagem abaixo. “Quando existe muita oscilação de um ano para o outro, a reta pode subir levemente, sem que o comportamento geral seja estatisticamente consistente”. Para detectar uma tendência estável, é necessário avaliar uma série mais longa, de pelo menos 15 anos.

Monitoramento constante
O monitoramento é imprescindível para apoiar os maricultores com informações que qualificam as decisões em momentos como o atual. “É preciso conhecer o mar e o único jeito é monitorar esse ambiente a partir da análise de dados, entre eles, a temperatura da água”, destaca o pesquisador. Além de Florianópolis, a Epagri conta com estações de monitoramento da água em Imbituba, Balneário Camboriú e São Francisco. Neste ano, serão instalados dois novos equipamentos na Ilha, um na baía Norte e outro na baía Sul.
Com dados mais qualificados, os maricultores catarinenses poderão avaliar melhor o que fazer frente a situações como a quebra de produção registrada nas últimas semanas. Uma das possibilidades, conforme o pesquisador André Tortato Novaes, gerente da Epagri/Cedap, é ampliar a comercialização de carne de ostra cozida em substituição à venda de ostra viva, muito comum na temporada turística de verão. O objetivo é reduzir riscos fazendo a colheita em temperaturas mais seguras.
Outra proposta é diversificar a produção, investindo em algas e outros moluscos, e estudar a possibilidade de cultivar espécies mais resistentes ao calor. Hoje, grande parte das ostras cultivadas em Santa Catarina são da espécie japonesa Crassostrea giga, originalmente acostumada a temperaturas mais frias. De arcordo com André, já era comum ocorrer perdas em torno de 40% no verão e havia discussões com os maricultores com propostas para reduzir o impacto, como a produção de macroalgas, que ajudam a combater a poluição marinha. Santa Catarina responde por mais de 90% da produção nacional de ostras.
Por: Cléia Schmitz, jornalista bolsista na Epagri/Fapesc
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